Alguns alunos da faculdade aonde eu leciono propuseram-me uma entrevista por escrito. Achei interessante, tendo em vista o teor das perguntas. Não aceitaria responder questões toscas e idiotas. Não tenho tempo a perder. Gostei da profundidade das mesmas. E gostei mais ainda porque tais questões certamente causam desconforto na maioria das pessoas.
Porém, um ponto foi acertado na mosca indo ao encontro dos meus interesses: vocês vão conhecer um pouquinho mais sobre mim nas coisas que realmente importam nesta (para o) Vida – com o perdão do trocadilho.
Seguem abaixo para as suas apreciações.
1 – O que é consciência humana?
R: “Consciência” é o nome que se dá à atividade do espírito quando este se dedica à organização de conhecimentos. Posso observar que pela minha mente a todo momento surgem as mais diversas informações. Quando me detenho em uma delas – ou no seu conjunto – e aí percebo um sentido específico, o nome que se dá a esta atividade do espírito é consciência. Esta atividade do espírito, chamada “consciência”, é algo assim como uma memória (organização de informações e experiências do passado) preparada para tarefas futuras. Resumindo, diz-se que consciência é a condição do sujeito que se concentra em algo com toda a sua alma, com todo o seu ser.
2 – O que é mente humana?
R: Mente humana é a designação que se dá ao conjunto de recursos que o homem possui para tudo conhecer. Tais recursos podem ser próprios, como é o caso dos sentidos exteriores (visão, audição, olfato, paladar e tato) e dos interiores (memória, imaginação, cogitativa), os primeiros tornando possível o conhecimento do mundo exterior e os segundos, do mundo interior. Os instrumentos de conhecimento que o homem cria (microscópio, telescópio, voltímetro, etc.,) são extensões dos sentidos externos, e também estão incluídos na expressão “mente humana”.
3 – Você acha que a mente humana pode influenciar os processos fisiológicos? Caso afirmativo de que forma?
R: Claro que pode. A úlcera, a gastrite, são exemplos corriqueiros deste fato.
Não se deve esquecer nunca que o homem é um ser composto: possui um corpo e uma alma. Pelo seu aspecto corporal, possui características semelhantes às dos animais (alimenta-se, cresce, reproduz-se, desloca-se localmente, etc.) e de criaturas puramente inteligentes e imateriais (que Aristóteles denominava “substância separada”, isto é, inteligência separada da matéria). Por isso se diz que ele é um animal (isto é, possui vida, por isso é “animado” ou “dotado de alma”) racional (ou seja, é capaz de raciocinar abstratamente, o que os animais não fazem). Sendo ele um ser composto, tanto sua fisiologia pode afetar sua inteligência (sua “mente”) quanto esta pode afetar seu corpo (sua fisiologia e também sua anatomia).
4 – Você acha que podemos ser vitimas de nossas emoções? Acredita que as emoções possam produzir saúde ou doença?
R: A emoção, seja ela positiva ou negativa, não produz, por si só, nem saúde nem doença. Emoção (ou sentimento) é o nome que se dá à constatação, pela consciência, da alteração que ocorreu no sujeito. Uma vez que o sujeito, ao longo de sua vida, não tenha exercitado sua capacidade reflexiva, aí é claro que os efeitos da emoção nele serão mais visíveis. Não porque as emoções, em si mesmo, possuam tal poder, mas sim pelo fato de o sujeito ter-se mantido incapaz para o raciocínio abstrato.
5 – Você pensa no sentido da vida?
R: Claro que sim. Caso contrário eu me sentiria inseguro para escolher e preterir coisas. Há coisas que aceito, mesmo que para terceiros elas pareçam desvantajosas; assim como rejeito outras que podem até parecer vantajosas. Como eu tenho o hábito de pensar constantemente no sentido da vida, julgo convenientes as escolhas que não a contrariem. Se não fizesse assim, eu seria um simples joguete das circunstâncias. Lembrado que são as escolhas que determinam o nosso destino.
6 – Qual o sentido da vida pra você?
R: É viver em conformidade com a minha vocação, a qual exige que eu me esforce diuturnamente para desenvolver as virtudes sem as quais a vida não vale a pena ser vivida. “Virtude” é o nome que se dá ao hábito de agir com consciência nas diversas situações da vida. As principais virtudes são a fortaleza, a temperança, a justiça e a prudência. A prudência é o regramento consciente da própria conduta; a fortaleza, a coragem para resistir aos medos e conservar a própria dignidade mesmo em situações arriscadas; a justiça, o hábito de não tomar ou reter o que ao outro pertence; a temperança, a força de caráter para dizer não aos desejos, uma vez que atendê-los signifique ir contra o sentido da vida.
7 – Você acredita que vive integralmente o seu momento presente ou preocupa-se excessivamente com seu passado e/ou futuro?
R: Eu acredito que me esforço por manter-me lúcido a cada momento de minha vida. Manter-me lúcido é o mesmo que me esforçar por manter minha consciência limpa de culpas, as quais poderiam resultar de alguma ação covarde, injusta, imprudente ou intemperante. Procuro ser leal a mim e aos outros a cada momento de minha vida. Por isso acredito poder afirmar que me esforço por viver integralmente meu presente, conservando a memória do meu passado e preparando-me para o futuro (para o porvir).
8 – Você acha que tem controle sobre a sua mente?
R: Da mente não é possível ter controle, mas, sim, sobre a vontade. Sobre a vontade, esforço-me sempre por ter controle sobre ela e, através deste controle, manter minha mente limpa de culpas.
9 – Você acha que concede atenção ao seu corpo e sua mente de forma equilibrada?
R: Acredito que sim, por uma questão de educação e temperamento. Meus pais me deram uma educação principalmente alicerçada no exemplo: meu pai nunca se comportou de maneira grosseira com minha mãe e vice-versa, mas sempre de maneira respeitosa. Observei, ao longo de minha vida, o contentamento que um experimentava com o outro ao ver o outro bem, com saúde e bem disposto. Desta experiência repetida nasceu-me o gosto por estar, sempre que possível, o melhor apresentável possível, razão porque tornei-me uma pessoa muito zelosa de minha aparência física. Tanto que com relação ao corpo, pratico corrida a pé, e ando de bicicleta. Porém, a atividade que me é mais aprazível, é o trabalho diário de contra-peso, ou seja, a musculação. Para mim, a “malhação” pertence à nobre tradição dos guerreiros, atletas, monges e iogues ascetas. Identifico-me não com os que buscam conforto e satisfação, mas com aqueles “que se esforçam e passaram fome pelo sabre”. E isso é musculação. É determinação. É transformação. É perseverança. É disciplina. É ritual. É arte e ciência, mergulhado em química e matemática ocidentais.
Quanto à minha mente, acho que sou um pouco relaxado, pois eu estudo menos do que deveria. Mas me esforço para educá-la de maneira a permitir-me ser coerente nas coisas que eu faça ou diga.
10 – É possivel treinar o corpo? É possível treinar a mente?
R: Sem dúvida, é possível treinar ambos. O corpo se treina domesticando-o, não atendendo tudo que a ele apetece, mas dando-lhe o que ele precisa. A mente, com reflexão, estudo e o hábito da consciência limpa, não deixando para resolver depois o que é meu dever fazer hoje.
11 – Você acha que um atleta que medita e treina sua atenção pode ter sua performance melhorada?
R: Acho que não. O atleta, por definição, é uma espécie de soldado. Todo atleta que se aplica a atividades abstratas da mente acaba deixando o esporte e, em muito casos, adquirindo vícios diversos. O atleta precisa do hábito da disciplina e não de meditação, esta entendida como atividade ligada a pensamentos abstratos.
12 – Você acha que a falta de percepção de um sentido de vida pode gerar stress, ansiedade e depressão?
R: Quem viva a vida sem se preocupar com o sentido da própria vida é uma espécie de morto-vivo. Assim como no corpo dos cadáveres surgem os vermes, no indivíduo que não medite sobre o sentido de sua vida é possível a emergência de todo tipo de doença do espírito.
13 – Do que você tem medo?
R: Fundamentalmente de ser infiel à minha vocação e desleal principalmente àquelas pessoas que amo. São os meus maiores medos. Os outros medos, como o de ver meu corpo desfigurado, contrair doenças, viver a perda dos entes queridos, etc., são parte normal da vida e estão fora do que eu posso prever ou administrar. Porém, a coerência com a minha vocação e a lealdade aos amigos, estão dentro do que posso administrar – e por isso meu medo é algum dia falhar nessas coisas.
14 – Descreva sua forma de perceber DEUS?
R: Sinceramente, eu só comecei a pensar na existência de Deus porque ao longo da vida conheci pessoas que dizem não acreditar em Deus. Para mim sempre foi a coisa mais óbvia do mundo o fato de Deus existir. Nunca tive nenhuma dúvida a respeito.
Mas, ao refletir sobre a questão da existência de Deus e sobre o fato de alguns terem dificuldade em acreditar nisso, percebi algumas coisas importantes. Por exemplo, 1) que a quase totalidade dos seres humanos acredita (e sempre acreditaram) em Deus; 2) que as pessoas que dizem que não acreditam em Deus, ao falarem de Deus, falam como pessoas que nunca pensaram seriamente neste assunto mas, sim, de outras pessoas que elas conheceram e que agiram errado com elas ou com terceiros. Assim, como tais pessoas diziam acreditar em Deus, mas mesmo assim agiam errado, então concluíram que Deus não existe; 3) quem diz que não acredita em Deus acaba afirmando, sem disso ter consciência, que acreditam em efeito sem causa. Porque se Deus não existe, como é que as demais coisas existem? De onde elas surgiram? Do nada? De outras coisas? Basta seguir esta linha de raciocínio para ver que não tem como escapar: se Deus não existe, não é possível explicar como as demais coisas existem, pois em algum momento elas começaram a existir, dado que nenhuma delas existe para sempre e nem existiram sempre.
15 – O que você sabe sobre psiconeuroimunoendocrinologia?
R: Absolutamente nada (com o perdão do pleonasmo).
16 – Você sabe para onde sua vida esta sendo direcionada? Tem controle sobre ela?
R: Não, não sei, e acho que ninguém sabe. O que sei é que eu possuo uma vocação e tenho de me esforçar para que minha vida se desenrole em coerência com ela, caso contrário ela carecerá de sentido. Mas aonde eu vou chegar, isto eu não sei e ninguém sabe e nem é possível ter controle sobre isso. Afinal de contas, Deus é um só e este não sou eu.
17 – Você poderia definir o que são práticas de integração corpo e mente?
R: Entendo que são práticas propostas por cegos espertos que vivem de enganar outros cegos distraídos para tirar deles principalmente dinheiro.
Fundamentando a resposta: modernamente, há duas concepções opostas sobre o que é o ser humano. Uma é a cristã, que enxerga o ser humano como uma criação especial de Deus: é a única criatura que Deus personaliza a criação, infundindo-lhe diretamente a alma. Esta concepção baseia-se no que está escrito no primeiro livro da Bíblia, Gênesis, 2, 7: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Este “sopro de Deus” é o princípio de vida do ser humano, ao qual se denomina “alma”.
A outra concepção é a baseada na crença no “Big Bang”: tudo começou com uma explosão, doutrina que não explica nem o que explodiu e também o que fez aquilo que explodiu explodir. Segundo esta doutrina, o homem é, como as demais coisas, uma simples “reunião de poeira cósmica”.
A concepção cristã presume e enfatiza uma hierarquia: o cosmos foi criado para a utilidade do corpo do homem; o corpo do homem para servir à sua alma; a sua alma, para adorar e amar a Deus, isto é, servi-Lo.
A segunda concepção, atéia, pressupõe que a alma do homem, bem como seu corpo, são iguais, diferindo apenas pelo fato de serem “formas diferentes de energia”. De modo que o que o homem é, no fundo, é uma “energia” (conceito que nunca foi explicado), a corporalidade e a subjetividade humana sendo suas duas formas de manifestação.
Para quem acredita na segunda concepção, a ideia de “integração corpo e mente” é muito atrativa, na medida em que a saúde ou a doença nada mais são do que um “desequilíbrio energético”. Pura balela.
Para os que acreditam na primeira concepção, cristã – o que é o meu caso – antes de falar em “integração corpo e mente”, soa mais razoável falar em “correta hierarquia”, isto é, a submissão do corpo à “mente” e desta a Deus. A hierarquia completa fica assim: cosmos, corpo do homem, alma do homem, Deus. O cosmos (ou o meio-ambiente total) deve ser cuidado pelo homem para que seu corpo não sofra; seu corpo deve ser cuidado e disciplinado para que ele se torne obediente à alma; esta deve ser virtuosa, isto é, deve ter como meta agradar a Deus, que a criou. Para a alma agradar a Deus, ela deve disciplinar o corpo; para o corpo comportar-se de maneira obediente à alma, ele deve ser submetido a boas regras, as quais são ditadas pela moral (fazer o bem e afastar-se do mal; não fazer ao próximo o que não queira que seja feito consigo, etc.); e para que tais regras dêem bons frutos, o homem deve cuidar o melhor que possa do meio-ambiente, sem o qual o seu corpo não é capaz de funcionar bem.
18 – A fé pode beneficiar as pessoas em geral e os atletas em especial? Justifique seu pensamento.
R: Todo ser humano possui fé, caso contrário ninguém sequer levantaria da cama. A fé é uma atividade espontânea do espírito do homem. O que deve ser observado é “no que é que o sujeito acredita?”, o objeto da fé. Se alguém viver sem acreditar que ele é capaz de conhecer a verdade, amar, superar seus defeitos, etc., acaba indo para o fundo do poço.
O atleta precisa manter a fé de que ele é capaz de ser o melhor atleta na modalidade que ele escolheu, assim como o cientista, que ele é capaz de encontrar a solução prática para alguma dificuldade técnica, o sujeito vocacionado às letras que ele é capaz de formular a compreensão da verdade de forma inteligível e útil para terceiros e assim por diante. Como disse o apóstolo São Paulo, “sem fé é impossível agradar a Deus”. Ora, se queremos agradar ao Bem Supremo, que é Deus, devemos começar acreditando nEle, acreditando que Ele é bom e que se preocupa com cada um de nós e para cada um quer o bem. Se não sou capaz de acreditar em nada disso, então é porque deixei de fazer jus ao status humano.

