Mais celebrado do que conhecido, José Bonifácio de Andrada e Silva é um personagem à espera de estudiosos capazes de fazer justiça a seus talentos múltiplos — e a uma notável visão do futuro do Brasil e dos brasileiros. Neste 13 de junho, quando se comemora seu nascimento, o Patriarca da Independência merece uma reflexão.
Arquiteto de um país que quase dois séculos depois ainda é uma nação em construção, pode ser definido como o primeiro grande sábio de nossa vida pública. Era extremamente progressista e generoso nos objetivos; absolutamente realista e moderado nos meios para alcançá-los.
Bonifácio teve visão política para enviar uma carta a dom Pedro I sugerindo a ruptura com Portugal, cinco dias antes do 7 de setembro de 1822. Também não lhe faltou coragem para denunciar a construção de uma ditadura sob a espada de dom Pedro I, apenas um ano depois.
Numa colônia onde o ouro era fonte de sonhos, riqueza e poder, foi para a Europa estudar metalurgia e geologia — quando era mais cômodo arrumar um diploma de Direito. Homem do mundo numa época em que o provincianismo e a vida colonial pareciam destino geográfico, Bonifácio aprendeu as lições de seu tempo. Foi testemunha ocular da ditadura de Robespierre durante o Terror da Revolução Francesa. Formulou uma visão crítica de toda injustiça social mas manteve-se ao largo de toda visão radicalizada da luta política. Em Lisboa, lutou contra as tropas de Napoleão que invadiram Portugal e, de volta ao Brasil, tornou-se um dos mais aplicados articuladores da Independência. Ajudou a construir um pacto pela independência que reunia maçons e religiosos, abolicionistas e escravocratas, nacionalistas e grandes comerciantes portugueses. A aposta nessa aliança tornou o Brasil possível — mas o futuro iria mostrar que Bonifácio não estava conformado com o que via.
Seus escritos, discursos e projetos são uma expressão permanente de um esforço de mudança diante de nossas mazelas e nossa ignorância. Bonifácio foi um dos primeiros a denunciar o pesadelo da escravidão. Também foi um defensor dos direitos dos povos indígenas e, com um século de vantagem sobre as primeiras feministas, já defendia o voto das mulheres. Bonifácio não se limitava a formular boas idéias. Procurava sugerir os meios para realizá-las. Encontrou uma fórmula razoável para abolir a escravidão: primeiro proibia-se a importação de escravos; mais tarde, o próprio cativeiro. Formulado no tempo da independência, o projeto ficava naquela fronteira em que a audácia se encontra com o realismo. Quando este projeto foi executado, várias décadas mais tarde, o País ameaçava afundar-se num anacronismo decrépito.
Bonifácio não venceu sempre. Mas mesmo suas derrotas deixaram ensinamentos.
José Bonifácio e o inconformismo
Junho 13, 2007 · 4 Comentários
Categorias: Política
4 respostas Até agora ↓
Sidney Vida // Junho 13, 2007 às 9:32 pm |
Amigos: este artigo foi escrito pelo Governador de São Paulo, José Serra. Foi publicado no jornal “A Tribuna” aqui de Santos/SP. Não sei se foi ele que escreveu este artigo – afinal de contas, ele deve ter o seu “ghost writer”-, mas gostei do conteúdo e assino embaixo todas as suas considerações. Gosto de artigos que falam sobre José Bonifácio, o grande inventor do Brasil.
Villa // Junho 15, 2007 às 7:02 pm |
Sid, que a Luta do herói nacional, sirva de ex. aos políticos e governantes. Desconfio q vc possue esse perfil de lutador….
gd abs
Villa // Junho 15, 2007 às 7:02 pm |
Sid, que a Luta do herói nacional, sirva de ex. aos políticos e governantes. Desconfio q vc possua esse perfil de lutador….
gd abs
arlindo salgueiro // Abril 4, 2009 às 11:11 pm |
Gostaria que o nosso governador, conhecedor que é de José Bonifácio, agora que o Patriarca tornou-se Herói, manda-se cumprir o Decreto-Lei do Estado de São Paulo 50499 de 26/1/06 que homenageia JB no seu Estado no dia 13 de junho!