Este texto foi brilhantemente escrito por Candido Prunes, vice-presidente do Instituto Liberal, sobre o carnaval do ano passado. Mas um ano depois, é inegável constatar que continua atualíssimo, já que os erros se repetem sem constrangimento no Brasil.
Vale a leitura porque o turismo – e percebo isso a cada dia – é a porta dourada de entrada para o desenvolvimento.
TURISMO-PROBLEMA
Os festejos carnavalescos representam uma boa oportunidade para se avaliar o turismo estrangeiro no Brasil. A imagem do País no exterior está quase que indissoluvelmente associada ao futebol e ao carnaval. Assim como os jogadores brasileiros encantam o mundo todo, a grande festa de Momo também exerce um fascínio sobre o estrangeiro. E não é para menos: o colorido das fantasias, o ritmo do samba e a alegria contagiante das multidões durante vários dias é algo sem precedentes no mundo. Nas capitais nordestinas, o carnaval ainda apresenta alguns encantos adicionais, como a espontaneidade dos blocos e alguns ritmos musicais diferentes, como o frevo e o maracatu.
Mas aquilo que aparece nas televisões e na mídia impressa é apenas o lado lúdico do carnaval. Os eternos problemas brasileiros empanaram o brilho que o carnaval mereceria. Por exemplo, quem foi diverte-se em Olinda enfrenta dificuldades que poucos jornais mostram. Primeiro, a cidade fica tomada por um número de foliões muito maior do que ela comporta. Olinda, declarada capital cultural do Brasil e contando com um notável conjunto arquitetônico, não possui locais adequados para o estacionamento de veículos. Os foliões têm que abandonar seus carros em terrenos baldios e caminhar até o centro histórico. No trajeto, esgoto a céu aberto e risco de assalto (as pessoas são instruídas a não andar com relógios, câmaras fotográficas, documentos ou qualquer objeto de valor). Centenas de ambulantes vendem alimentos em condições precárias de higiene. Pouca ou nenhuma lata de lixo. Nenhum banheiro público. Isso para não mencionar os vômitos espalhados pelas ruas em razão dos excessos alcoólicos. Essa perversa combinação, durante uma festa que se prolonga por vários dias quase ininterruptamente, produz um caos sanitário.
Quem tolera participar de uma festa, por mais atrativos que ela possa apresentar, se as condições são essas? Um olhar atento sobre os turistas estrangeiros que foram para o carnaval de Olinda (em 2007, grifo meu) responde à questão. Eles podem ser divididos em três grupos. O primeiro, mais expressivo numericamente, contava com jovens cujo interesse não era a alegria de participar dos festejos momescos. Estavam simplesmente atrás de drogas baratas a serem desfrutadas num ambiente de promiscuidade. O segundo, composto por homens mais velhos, eram igualmente desinteressado pelo carnaval em si. Vieram para o Brasil por causa das prostitutas baratas. O terceiro, minoritário, era o grupo dos estrangeiros que vieram atrás do estereótipo de carnaval brasileiro: alegria, folclore, paisagens tropicais exuberantes.
Os membros do primeiro e segundo grupos certamente retornarão ao País e recomendarão a viagem para amigos e conhecidos. Encontraram o que buscavam: drogas, sexo fácil e prostitutas baratas. Os do terceiro grupo dificilmente repetirão a experiência e muito menos irão aconselhar que alguém venha ao Brasil nessa época do ano.
O Brasil, assim, vem perdendo charme como destino turístico. Suas decantadas virtudes vão se esmaecendo aos olhos do estrangeiro, pois o País tem que competir hoje com destinos no Caribe, Oriente Médio e Pacífico. Que também oferecem praias, paisagens exuberantes, clima quente, comidas exóticas, povos hospitaleiros e artesanatos curiosos.
A realidade nesse sentido é dura. Do ponto de vista turístico, o Brasil é cada vez mais um mero entreposto de drogas e prostituição. Se nada for feito no curto prazo – em relação à segurança – e no longo prazo – em relação à educação -, o turismo se tornará uma crescente fonte de problemas e não de receitas para os brasileiros.